terça-feira, outubro 03, 2006

Mindelact 2006 - Memoria descritiva





Mais um festival Mindelact. De 08 a 17 de Setembro realizou-se na cidade do Mindelo a festa do teatro. Este ano o festival começou logo com a amputação dos recursos financeiros, mas que apesar de tudo não acinzentou esta festa, devido ao espírito da equipa de produção, que teimosamente se esforça por gerir este acontecimento sem se deixar cair no desânimo. Vem provar que já nada fará demolir este festival, já é um acontecimento que faz parte da vida dos cabo-verdianos.
Como um ritual, em Setembro no Mindelo respirou-se teatro. Durante dez dias a cidade agitou-se e todas as energias confluíram no Centro Cultural do Mindelo.
Dividido por três espaços e quatro tempos: Auditório, Pátio e Rua; 17h, 21h, 21.30h e 23.30h, a Teatrolândia, a Animação, a Programação Principal e o Off preencheram as expectativas do público mindelense habituado a este formato.
A abrir o festival, e depois da agitação das formalidades de abertura dos palcos, o público apreciou a tão esperada “Um vez Soncente era Sábe», musical sobre o Mindelo do início do século XX. Importante ressalvar aqui o facto simbólico de neste espectáculo terem participado elementos de vários grupos de teatro de São Vicente, o que por si demonstra o forte espírito de grupo que se vive no festival. Uma abertura que provocou rasgos de sorrisos, mas que ficou um pouco aquém da expectativa, uma vez que apesar das potencialidades cénicas desta peça, os problemas de ordem técnica pesaram um pouco na fruição do mesmo. Mas fez-se eco o “Wellcome to cidade d’Mindelo” (música integrante do espectáculo) e não podia ter sido melhor escolhida a peça de abertura desta festa de teatro.
No segundo dia, o Teatro Art’Imagem apresentou Ratos e Homens de Steinbeck, um dos momentos altos do festival, que cortou fôlegos na plateia e apresentou a simplicidade do drama humano. Pouco habituado a este “soco na barriga”, o público do festival ficou quedo e em silêncio, ora por cumplicidade com a cena, ora por não haver outra opção de reacção. Muito mérito para estes actores, mas de sublinhar o forte abraço sentido ao actor cabo-verdiano João Paulo Brito, agente teatral desta nação. Logo de seguida e na mesma noite o público teve oportunidade de quebrar este silêncio sentido, com o Enano, jovem clown que fez explodir gargalhadas no pátio e que foi uma das presenças mais marcantes deste festival, enchendo de alegria os espaços por onde passava. Este clown, vindo de Espanha, levou a sua alegria até S. Pedro e Calhau (duas pequenas aldeias na ilha de S. Vicente), levou com ele de praça em praça uma multidão de gente, e rasgava em cada canto um sorriso. Se se tivesse que eleger um agente teatral que carregasse a bandeira com o verdadeiro espírito de festival, concerteza seria eleito Enano, por unanimidade.
E este espírito foi vivido em pleno no quarto dia do festival. Completamente off off, os grupos se cruzaram no bar do festival e entre palavras e músicas sente-se um verdadeiro ritual orgiásticas de partilha de mundos e experiências. Por volta da meia-noite no Centro Cultural do Mindelo, cantou-se o fado, a morna, o flamengo andaluz e palavras cruzadas de outros mundos, num perfeito improviso de festa e assim se sentiu a verdadeira consciência de festival, de mundos que se cruzam, não só mundo teatrais mas experiências pessoais ricas de emoção e risos. E o brilho desta noite teve eco nos dias seguintes, ecos de felicidade, de cumplicidade. Pois, como mesmo salienta o seu director, este festival é batalha ganha, mais que não seja, pelo sentido de partilha, de amizade e criatividade vivido entre os grupos participantes. Foi neste mesmo dia que foi apresentada a tão esperada produção da casa, ou seja, a peça do Grupo do Centro Cultural Português do Mindelo, Mulheres na Lajinha. No seguimento do historial da comédia nesta cidade a peça foi muito bem recebida e grande parte da plateia se identificou com as palavras das quatro mulheres na Lajinha. Apesar de não ter surpreendido, ser uma encenação simples sem grande novidade, a peça divertiu e mostrou como o riso é ainda o ponto forte do teatro que se espera neste festival. O público vai também para se divertir e esta peça cumpriu esse desejo.
Vindo de Portugal, tivemos a novidade do Staticman, que seduziu na totalidade os espectadores do Mindelact. Com performance antes do espectáculo da sala principal, o homem-estátua presenteou-nos com algumas das suas criações de imobilidade.
A programação infantil, a Teatrolândia, foi duma qualidade exemplar, e o público jovem pode ver espectáculos de grande qualidade, onde encontramos encenações maduras e exigentes. De salientar a beleza dos figurinos em todos os espectáculos. Ficamos com a certeza que os espectáculos para a infância se encontram num bom nível em Cabo Verde, uma vez que todas estas produções foram realizadas por grupos cabo-verdianos. O mesmo já não se poderá falar das peças apresentadas no Off, que de uma forma geral mostraram fragilidades ao nível da encenação, da interpretação, mas que duma forma interessante atingiram outros objectivos. O grupo de Sto Antão apresentou um pequeno projecto de clown com jovens adolescentes. Sal e S. Nicolau trouxeram a sua forma simples e sincera de improvisação sobre temas corriqueiros e assim partilharam um pouco das suas vivências e beberam esta experiência de festival de teatro. Com excepção ao nível de qualidade cénica tivemos a peça Mangatchada, trabalho final do XI Curso de Teatro CCP/ICA.
Dentro da programação principal, para além de Ratos e Homens de Portugal, tivemos um grupo das Canárias, Teatro del Encanto, que apresentaram a peça O Jardim Prometido construída à volta da mulher, o universo onírico da mulher cabo-verdiana, onde entre alguma confusão linguística e beleza de acção o público ficou convencido. Mas de sublinhar a fantástica peça Rostos de Loanda e Luanda do grupo angolano Miragens Teatro, com uma qualidade surpreendente. Com uma energia contagiante este espectáculo prestou a devida homenagem às gentes do passado de Luanda e conseguiu transportar até Cabo Verde a musicalidade e corporalidade do teatro angolano. O público foi ainda brindado com o contador de histórias vindo da Galiza, Quico Cadaval, que acompanhado pelo músico Fran Perez partilhou três histórias fantásticas e por momentos sentiu-se que a sala de 250 lugares se tinha transformado num pequeno aconchego de «Era uma vez…». Fabuloso! Repetido informalmente uns dias depois no pátio, mostrou que este festival é também construído momento a momento, faz-se ao sabor das energias que fluem e partilhas que se criam. Um só actor em palco foi repetido dias depois com o show do actor luso-brasileiro Júnior Sampaio, desta, num tom provocatório com um espectáculo bizarro e algo estranho a este público, deixando o espectador desprevenido algo confuso e reflexivo. Presente pela segunda a Companhia Livre de Teatro, do Brasil, pelo tom de partilha com o público, construiu ela mesmo uma página deste festival. A peça, em estreia absoluta, girando à volta duma relação a três, cativou pela boa interpretação dos actores. De salientar que este grupo foi reconhecido com o Prémio Copacabana 2006, prémio financiado pela Tecnicil, mecenas deste festival. Da capital tivemos a presença de dois grupos, o Fladu Fla, com a Profesia di Kriolu, peça estreada em Santiago no Março Mês do Teatro e Finka Pé, com Maria Badia. Interessante ressalvar que esta segunda peça teve uma recepção bem mais positiva ali no Mindelo do que na Praia, talvez pela própria intimidade do espaço onde se realizou que ajudou à interacção com o público ou até mesmo pela própria distância que existe entre esta personagem «badia» com o público mindelense, o que provocaria algum interesse extra. Ainda no palco principal se apresentou o Grupo de Teatro Nova Sintra da ilha da Brava com a peça Descarado, mostrando a simplicidade do fazer teatro, mas com uma fluidez e humildade interessante a cativante. Sempre a expressividade dos actores se mostra o ponto alto do trabalho cénico.
Como vem sendo hábito, o festival proporcionou para além do prazer de fruição cénica, a possibilidade de formação. Realizaram-se as acções de formação: Teatro Africano, Encenação, Técnica Vocal, Atelier Prático de Cenografia e Técnica de Clown. Apesar da pouca participação nas mesmas, de aplaudir estas iniciativas que assim completam a rica programação deste festival.
É de apontar o passo fundamental que foi dado nesta edição do festival, que foi o finalmente se ter activado a politica de Mecenato, tendo a Tecnicil aberto esta nova Era da politica de financiamento do teatro.
Neste Mindelact a variedade que se espera deste tipo de iniciativa, ultrapassou o esperado, com grupos e estéticas bem contrastantes. Tivemos «socos na barriga» e gargalhadas fáceis, tivemos acções de formação e festas de bar, tivemos a imobilidade do homem-estátua ao lado dos ritmos de Luanda, tivemos histórias fantásticas ao lado de provocações bizarras, e em momento algum o público se entediou. E tivemos ainda lugar á memória com a fantástica Instalação Cenográfica do espectáculo do ano anterior Auto da Compadecida. Mais uma vez se fecha um festival com a abertura das cortinas do próximo, para que não se sinta o fecho mas sim o «galope» de quem acredita que o Festival Internacional de Teatro do Mindelo está para ficar!

4 Comments:

At 11:39 da manhã, Blogger Kamia aka Chissana Magalhães said...

Parabéns pelo blog, que corajosamente mantem-se dentro da sua temática inicial. E com qualidade diga-se de passagem.
Força!

Assim que puder faço o link la no So Pa Fla.

 
At 4:08 da tarde, Blogger micaelabarbosa said...

obrigada Kamia.
Um abraço

 
At 11:18 da manhã, Blogger Matilde said...

MIcas: finalmente, deixo um rasto da minha passagem por aqui ... no dia da conversa sobre Blogs, no Kaza Bela, disseste que o objectivo deste blog é "receber contribuições" sobre o que faz e se pensa sobre teatro aqui em Cabo Verde. Até agora, só tens dado. Pena é que não tenha ainda despertado o interesse da nossa "blogosfera". Se calhar se houvesse mais "polémica" e menos conteúdo...o que não é caso do Cena Kiritika, pleno de deixas para debates frutíferos sobre teatro entre nós... se calahr com o tempo... abrasus, Mat

 
At 2:39 da tarde, Blogger juliane said...

parabens pelo seu blog, e que eu estou pesquizando sobre musica descritiva e queria saber se vc poderia me dar uma informaçao de qual site eu poderia entrar pra achar esse trabalho, ele e muito importante pra mim e se vc pudesse queria que vc mandasse um recado no meu msn pra mim poder pesquizar esse trabalho, faz mais de 3 semanas que eu pesquizo e nao acho se puder me manda o site o meu msn e :
july_bbgg@hotmail.com

 

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