segunda-feira, julho 31, 2006

O significado da critica em Cabo Verde – algumas reflexões

A crítica teatral dentro do panorama específico de Cabo Verde é quase inexistente. Encontramos alguns artigos jornalísticos que dentro do carácter meramente informativo pontualmente fazem uma pequena reflexão acerca do fazer teatral, com pouca incisão, à excepção de alguns casos raros, em que encontramos uma reflexão mais incisiva sobre alguns espectáculos.
Isto deve-se concerteza ao próprio percurso teatral de Cabo Verde que ainda não criou espaço crítico.
Pecarei agora por me ausentar do contexto mindelense, que como é sabido, é o grande pólo de criação teatral na última década, pela simples razão de que me encontro neste momento no contexto e percurso teatral da ilha de Santiago, onde iniciei os caminhos da critica teatral. Mas no entanto este pecado será de fácil absolvição, pois mesmo em S. Vicente não tem havido lugar à crítica, ficando o texto jornalístico, pela simples informação e divulgação, sem reflexão complementar ao projecto cénico.
Acontece que em Santiago o teatro só acontece uma vez por ano na sua real acepção de acontecimento teatral – no Março Mês do teatro – durante o resto do ano e apesar das expectativas criadas, o teatro hiberna e só muito pontualmente podemos usufruir de acontecimento cénico. É um vazio que corta com a tão necessária continuidade da história do teatro e que consequentemente deixa a critica perder o fio estético, e obriga a começar de novo quando o teatro reaparece. E o entusiasma esvai-se.
Que papel poderá desempenhar a critica em Cabo Verde? Ao contrário do que acontece noutros países, aqui a crítica não assume um papel de divulgação de um espectáculo, uma vez que os projectos são duma efemeridade desinteressante, sempre que sai a critica já o espectáculo aconteceu, e o público não tem maneira de o rever e poder cruzar o olhar critico com o acontecimento cénico. Esta ausência de continuidade de projectos cénicos como que leva o critico a sentir uma entrega em vão, sem repercussões. Esta efemeridade, esta passagem tão fulminante de espectáculos pelo palco traz consigo várias desvantagens para o discurso crítico: um único olhar, sem hipóteses de poder assistir mais do que uma vez e assim tomar diferentes atitudes perante o objecto, a comparação de públicos não se produz, não se poderá analisar o crescimento do projecto, realidade presente em peças com temporadas, e resume-se sempre a um pós-espectáculo. E para a crítica a continuidade de projectos é matéria fundamental de enquadramento e reflexão.
Outra questão que pode limitar o discurso critico e a recepção deste, tem a ver com o facto de neste momento em Cabo Verde só se produzir um único discurso critico sobre um objecto cénico, o que leva a que a critica seja limitada a um só olhar, subjectivo e com os critérios únicos. Se outras criticas a um mesmo espectáculo houvessem, para além do discurso o leitor poderia aceder ao meta-discurso e perceber as ferramentas da crítica e com isso elaborar uma meta-reflexão. A pluralidade seria bem mais interessante. Assim como se produziria mais facilmente a revisão dos critérios por parte do crítico, inquietação fundamental para o legitimo discurso crítico. Assim como o criador cénico se questiona permanentemente sobre as suas opções, também o critico o deverá fazer, pois é ele também um criador.
Assim como a sua actualização de referências estéticas. E aqui questiono o que poderá significar esta actualização. Um critico com um universo referencial distante do contexto onde se realiza a critica, qual a atitude a tomar? Continuar no mesmo referente e tomar a atitude de olhar estrangeiro? Abandonar o referente que domina e construir um novo referente autista? Ou por outro lado, deverá cruzar os dois referentes e criar um discurso novo? Penso que a terceira atitude será a mais profícua, implicando no entanto um balançar constante e um trabalho de interpretação mais profundo, com base no contexto em que está mas cruzando sempre com o outro universo referencial.
Um outro ponto que analiso tem a ver com a relação entre o crítico e o editor, sendo que a critica existe nos meios de comunicação que o permitam, principalmente na imprensa. Sabendo da realidade da imprensa em Cabo Verde a critica vai a reboque. Em Cabo verde não existe jornal diário, o jornal mais recepcionado em Cabo Verde é semanal, o que desde logo imprime uma distância temporal entre a critica e o espectáculo (imaginemos uma peça que é apresentada no sábado, só na sexta seguinte sairá a sua reflexão) o que no entanto não é prejudicial, pois a reflexão critica não é espontânea e permite assim tempo de reflexão e de auscultação do público para além do tempo efusivo pós-espectáculo. No entanto, o facto de ser semanário demonstra as condições em que se encontra a imprensa em Cabo Verde, onde concerteza um espaço de critica não cabe na linha editorial, só em momentos pontuais de efusividade teatral como sejam o Março- Mês do teatro e o Festival Internacional de Teatro Mindelact.
Seja quais forem as condições de produção critica, no entanto, e é importante relevar esse facto, constitui a critica uma memória do espectáculo, memória registada que tem a mais-valia de fazer a história do teatro. E esse facto só por si valida seja qual for a critica e qual a recepção desta. Sabendo da efemeridade do acontecimento teatral, onde nem fotos, nem restos de adereços ou figurinos, nem vídeo, constituem a memória real do espectáculo teatral pela sua especificidade, a critica é mais um documento que ajudará a reconstituir o acontecimento., e dai, imprescindível.
Estamos a criar um percurso teatral, onde é fundamental a seu lado se ir construindo um percurso crítico. Toda a arte só existe se houver reflexão, interrogação e inovação. O gesto artístico precisa sempre de mediação critica.

5 Comments:

At 9:21 da tarde, Blogger CARPINTARIA said...

O texto crítico sopbre a (ausência de) crítica teatral e a sua consquente falta de feedback entyre o produtor do pensamento crítico e o público em questão procurar fornecer as primeiras pistas para que se edifique em Santiago a reflexão sobre a encenação tetral, coisa que considero oportuna, entretanto, há que salentar que a crítica, qualquer que seja ela, não tem nem poderá nunca tero poder de alterar a ordem das interpretações públicas, quando muito, a crítica, servirá de ponte para que atravessemos os significados dramatúrgicos, mas a interpretação, a recepção da obra teatral, esta será sempre pessoal, e pertencerá sempre ao público, o único fluidor do que denominamos arte (cênica).
Francisco Weyl
Carpintaeiro de Poesia e de Cinema

 
At 9:05 da manhã, Blogger micaelabarbosa said...

Concerteza a critica será um elemento a acrescentar ao paradigma de interpretação e nunca limitador dela mesma. Obrigada Francisco

 
At 1:16 da tarde, Blogger A Poética do Fracasso said...

Ola amiga, vejo que a tese está a andar: "cenakritica em cabo verde" - irei tentar acompanhar.
beijo gr
Luis Campião

 
At 5:53 da tarde, Blogger M&S said...

Uma das qualidades do teatro de Cabo Verde é a expressividade!

 
At 5:55 da tarde, Blogger M&S said...

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